segunda-feira, setembro 23, 2013

Devaneios

As insónias são sempre sinónimo de inquietação dizem os entendidos, ou dizem-se eles entendidos... Hoje poderei dizer o mesmo também.
Insónia é um desassossego, na alma... No coração. E se eu tiver algum dos dois, creio que algo me atormenta ambos, simultaneamente.
Conto as horas...
Ouço o tic-tac estridente do relógio e da máquina infernal que bate dentro de mim descompassadamente.
Adormeço.
Acordo com cães a ferrarem-me as entranhas, ou pelo menos sinto-os como tal... Com o rosto a queimar. No meu pesadelo ardi em chamas, mas são gotas salgadas que me queimam agora.
Agarro o ventre em posição fetal e volto a adormecer.
O despertador toca.
O corpo move-se quase de forma mecânica mas todos os pensamentos continuam a dormir. 
Todos os sentimentos hibernaram...
Trabalho a um ritmo que eu própria desconheço, movida pelo conhecimento já alienado do que faço, porque se me perguntam o que fiz hoje, já esqueci.
Volto a casa onde me reencontro com a alma que deixei na cama... Deito-me na esperança que ela se volte a unir com o meu corpo.

quinta-feira, setembro 19, 2013

De hoje, para sempre.

E o que levo do dia de hoje é que sempre dou muitas oportunidades para que me surpreendam... E apenas uma para que me desiludam. 

domingo, setembro 15, 2013

(des)Iludir

A RM algum dia me disse daquela mesa de cozinha que um dia chegou a ser nossa, enquanto tomávamos o pequeno-almoço num início de dia qualquer: "A culpa é sua fique sabendo." - disse ela com o seu sotaque brasileiro mas num tom sério que me deixava adivinhar que o que vinha eram palavras que eu levaria comigo quando deixasse aquela mesa, aquelas paredes, aquela casa... A faculdade ou mesmo aquela cidade. Sabia que aquelas palavras iam comigo para a vida. E assim foi...
Continuou: "A culpa dessa desilusão é toda sua. 'Cê sabe que quando gosta muito de alguém, você acaba pensando que essa pessoa vai agir sempre de igual para igual. Você gosta tanto que acaba criando uma expectativa alta na outra pessoa... Nunca ninguém prometeu que iria ser assim, mas você fica pensando que o facto de você estar lá sempre, que o facto de você gostar tanto, de você fazer tanto bem, nunca pensa que a outra pessoa possa fazer de outro jeito que não a mesma coisa para você. 'Tá vendo Lili?...  A culpa é sua. Você se ilude com seus pensamentos, é traída por eles... E acaba desiludida com seus sentimentos."
Levantei-me e pensei sobre isto... Remoí.  Mudei de casa... De cidade...
Passaram-se anos.
RM, enquanto escrevo pergunto-me o que pensarias tu se soubesses que após tantos anos, continuo a recordar-me das tuas palavras e a dar-te toda a razão do mundo, mas continuo a agir igual!?
Continuo a iludir-me... E a desiludir-me.
Continuo a criar expectativas e a destruí-las.
O que dirias tu RM?...
Desiludo-me acima de tudo com o facto de me desiludir... Ou de me iludir. Porque este ciclo vicioso é como uma teia de onde tentas fugir... Mas acabas sempre preso.
Por muito curto que seja, o sabor da falsa ilusão é sempre demasiado bom para ficar sem ele... E eu teimo em acreditar que um dia é diferente, continuo a acreditar nas pessoas... Esquecendo que existem más e escassam as boas.


[June 2013]

quarta-feira, setembro 11, 2013

Nada vale.

Sabes que não vale a pena varrer o chão e muito menos esconder o lixo debaixo do tapete.
Não vale a pena esfregar o soalho... Nem tão pouco levantar tacos. 
Não adianta pintar paredes, nem sequer colar papel de parede.
É em vão mudar cortinas, colocar portadas...
De nada vale...
Até ao dia em que acordares a sentir que as paredes já são diferentes.
Foram deitadas abaixo, construíram-se outras...
Que o chão foi colocado de novo. Com tijoleira anti-derrapante.
Que as janelas se abriram, e os seus vidros não são mais martelados.
Não adianta nem mudar de casa, enquanto os teus alicerces pertencerem a outra morada.

[mês 07 de 13]

terça-feira, setembro 10, 2013

Feliz acaso...

Hoje, olhei para ti por acaso, reencontrei-te por acaso...
Daqueles felizes acasos do destino. 
Acenaste e sorriste ao ver-me... 
Passou algum tempo, mas já não lembro quanto...
Já quase não me lembrava das linhas que contrais, do sorriso rasgado e sentido que desenhas quando os teus lábios se esticam ao forma-lo.
Não me lembrava de sorrires assim já há algum tempo quando me vias... Mas hoje iluminaste-me... Iluminaste-te. Ele iluminou-nos. 
Amanhã encontro-te novamente? À mesma hora? 

No espelho?...

Sorri, e virei costas... Abraçando um novo dia. Sorrindo... 


[01 July 13]

terça-feira, agosto 13, 2013

Ruínas

Hoje passei e já não estavas... 
Já sabia que não estavas mas não consegui deixar de sentir o aperto.
Talvez por não saber onde estavas. 
Não, tenho quase a certeza que sei. Mas talvez por não saber como estavas.
Acho que prefiro não saber. Mas não consigo deixar de me importar.
Foste embora...
Tu, que um dia tiveste tudo...
Tiveste um castelo, o teu castelo. Que um dia foi meu também.
Levaste-o à ruína. Quase me levaste também...
Mas ergueste uma pequena casa... E se Lar é onde o nosso coração está, desculpa, mas só posso chamar a essas paredes e telhados de casa.
Agora nem casa tens.
Arruinaste outra...
E agora onde estás?
Creio que entre uns blocos de cimento, uma porta e uma janela que um dia construímos enquanto tínhamos o castelo...
Aquilo que eram os arrumos hoje é o teu albergue.
Quanto tempo precisas até o arruinares também? 
Até acabares de te arruinar?
Tenho medo da degradação que trazes contigo, da devastação que espalhas onde passas... 
Do que absorves de quem te rodeia.
Da forma como estás tao arruinadamente só.
Eu estive aqui, aí, contigo, sempre... Demasiado tempo.
Mas agora é tarde. O comboio partiu, e tu não saltaste a tempo.
O barco afundou e levou-te com ele...
O nosso castelo incendiou-se e tu deixaste que ardesse. 
Deixaste que me queimasse, te queimasse... 
Deixaste que ruísse. 
Deixaste. 
E hoje sou eu que te deixo...
Boa sorte. 

quarta-feira, julho 24, 2013

Run Lilly Run

Sabia que tinha de ir lá. Já estava marcado há três semanas.
Caminhava, em passo apressado, olhava os ponteiros e andavam ainda mais depressa do que o que conseguia acompanhar. Estava atrasada. Como sempre. 
Mas na alma, não tinha pressa. 
Pisava o chão a passos largos, em frente, e o coração puxava-me para trás.
Queria de ir. Tinha de ir. Mas não queria.
50 metros.
Tinha medo que estivesse lá. Que me visse. Que me falasse. Que lhe dissessem que me viram. 
Tão perto e... tão perto. Desejava que fosse longe.
Porta com Porta.
Tinha de passar em frente a ela. 
Não quis olhar. Passei, os meus pés não tocaram o chão. Ou nem senti.
Passei. 
Não queria olhar. Não queria ver. Não queria sequer saber se estava.
Mas se tiver de ver, que seja até ficar cega... 
Olhei.
Vi. 
Ceguei.
Estava lá. 
Em milésimos de segundo reconheci a silhueta, o olhar deturpado... A roupa até, talvez.
Milésimos de segundos e gelei.
Cheguei ao meu destino. 
Fiquei de pé, talvez 2 minutos que duraram 2 horas. 
As minhas mãos secaram, e molharam. 
Tive calor. Tive frio. 
Olhei para trás. 
Ouvi barulhos. 
Vi sombras. 
Não consegui deixar de olhar para trás. 
Ouvi vozes.
Vi pessoas. Todas elas se pareciam contigo.
Senti medo. Terror. Que me encontrasses. 
Fugi. 
O meu coração fugiu do sítio, o ar saiu dos pulmões e não regressou mais. 
Alguém que eu não via esganava-me. Senti. 
Fugi. Corri. 
Fiz outro caminho... 
Tinha lágrimas a queimarem-me os olhos, a brotarem das entranhas... 
Tive medo. Pânico. 
Não sabia que tinha medo de ti... 
Nunca tive... 
Não sei onde foi que me perdi...
Mas onde quer que eu me encontre, não te quero encontrar.