Pedaços

domingo, março 31, 2013

Ballerinas.

No fim da noite, quando me descalço, e tiro as minhas ballerinas de salto alto, a sobriedade abraça-me. 
Vagueio em S's até à cama que sempre me despe de devaneios e me aconchega em sonhos. 
Fico sóbria enquanto durmo.
E quando pela manhã volto a calçar as minhas sabrinas que me fazem deambular entre a realidade deturpada e os sonhos malsinados, ou o oposto, volto a sentir-me "limpa" para mais um dia em que me vou embebedar pela doce confusão dos nossos dias. 
Saio de sorriso vestido mas de óculos escuros, que ajudam a equilibrar a claridade que me impõem. Claridade obscura. Demasiada, para os meus olhos pela manhã. 
Embriago-me com as palavras abusivas, com as exclamações sarcásticas, com as reticências infindas. E volto a abraçar o meu copo da vida, onde me encontro e me perco... 
Onde com tanto que bebo... Que brindo... Que afogo... Sou eu. 

terça-feira, março 26, 2013

quinta-feira, março 21, 2013

Copos cheios, corações vazios.

Durante tantos anos te critiquei, ainda critico... Pelo passado, sabes? 
Podia ter sido diferente... 
E o Presente também. Podia ser um presente.
Mas é sempre assim, quando apontamos algo em alguém, é quase apontar a nós mesmos. 
E também eu sou, errante, como tu...

Nunca pensei que fosse tão fácil de agarrar algo que nos deixasse mais longe de Nós.
Nem reparamos, não é? Quando damos conta, já estamos demasiado dentro... Ou demasiado fora. 
Demasiado longe. 
Afinal, torna tudo mais fácil... 
Agarramo-nos, pensando que estamos a dar a mão a alguém. Não é fácil?
É. Demasiado.

Ela está sempre ali. Não cobra nada. Nunca se fecha. Podes tu sempre apertar a tua mão em volta dela. 
Beijá-la. 
Ela nunca diz que não.
E a nossa mente agradece. No fim de contas, ela faz-te esquecer o que não queres lembrar... 
Traz para perto quem a vida levou para longe...
Torna as memórias passadas mais vivas...
E o melhor de tudo... 
É que não faz perguntas. Só dá respostas. As que queremos ouvir... 

E agora? 

Agora, vais mais uma vez pôr uma vírgula na vossa relação... 
Sim, porque não acredito em pontos finais nessa tua história com ela... 
Já usaste tantos pontos... Agora são reticências... Sugerem sempre algo mais. E eu nem percebo muito de pontuação.
Ainda acreditas haver esperança para ti? 
Eu não... 
Já não.
Nunca mais. E contigo, nunca, não é demasiado tempo. 
Não acredito porque para ti... Nada mais vale do que ela. 
É mais forte que tu... 
À mínima fraqueza... Tu rastejas atrás... 
Não sabes dizer "não"... 
Não sabes que dizeres "sim" a ela, é dizer NÃO a ti próprio... 
Não sabes... Não consegues... 
Tens por ela um amor maior do que o teu primeiro... 
E mesmo o meu... Por ti... Não consegue ser maior que esse teu vício... 
Vício que te destrói... Mata, aos poucos. 
E eu estou a assistir de pé a essa destruição. Todos os dias... Meses. Anos. 
Já não me lembro há quantos. Tantos, não são?
Vou-me despedindo de ti todos os dias um pouco mais... 
Qualquer dia abro mão de ti... 
Até da pena que tenho de ti... 
Pouco sobrou além disso... 
Mas ainda não é amanhã... Que desisto de ti.
Amanhã eu vou estar lá... Para te ver travar mais uma luta... Que sei de antemão estar perdida...
Ainda te vou apoiar...
E entre drogas... Falta de fé... Amores perdidos... Penas... Dependências... 
Não deixas de ser quem és... 
Errante... 
Como eu... 
Mas ainda assim, um dos seres que me deu vida.
E um dos seres que me leva para mais perto da morte... A da alma. 
Porque há dias... Que o que bebes... Me seca por completo. A alma. 
O coração. Ou o que resta dele. 
Me embebeba de dor. 
Tens o copo cheio. E o coração vazio. 

sábado, março 16, 2013

Kiwis.

Há pessoas que são como os Kiwis.
Feias.
Peludas.
Castanhas.
Sem forma.
Já descascaram um Kiwi?
Há difíceis. E há fáceis.
Alguns maduros... Outros verdes.
Há Kiwis que nunca amadurecem e outros podres de maduros.
Kiwis impenetráveis e de comer à colher.

Um kiwi pode ser muito. Pouco. Nada.

Mas tira-lhe a casca. 




O seu interior é quase sempre bonito... Com sorte até é doce.

E como os kiwis, há pessoas que guardam o melhor de si debaixo da casca.
Há Kiwis doces... E os que acham que "só podes 'tar a brincar", "ca nojo" se verbalizas isso.
Há aqueles que tem casca porque é da sua natureza, e os que a agarram mais quando a puxas.
Não porque gostem de se esconder... Mas porque acham que o podes banalizar... Igualar aos demais, quando vês que afinal, todos tem um pouco de "verde" em si.

E depois...
Há Kiwis que são a outra metade da Laranja.






sexta-feira, março 08, 2013

Próxima Paragem.

Vemos todos os dias as mesmas caras no comboio... Ou não tanto. 
Caras de pessoas... De seres vivos, outros não tanto. Caras cheias de sono, rostos cheios de tristeza... Olhos cheios de nada. 
Crianças... Carregam mochilas como quem carrega o seu futuro. O mundo. Cheio de conhecimento ou cheio de nada. 
Não os conheces. Mas já fazem parte da tua viagem. 
Partilhas o teu lugar ao lado com alguém que não conheces, não sabes nada sobre, mas já estão na mesma viagem. 
Ambos olham na mesma direcção, pela mesma janela. Mas não sabes de nada. 
Aproxima-se a hora de sair. 
Não dizes nada. 
Sais. 
Podes ver estes rostos amanhã ou não. Mas sais... 

E como dizem os senhores da CP, "A próxima paragem vai mudar a sua vida."

segunda-feira, março 04, 2013

Hoje. Estou-me nas tintas, hoje.

"Como estás?"
Dei-lhe meio sorriso dizendo "Não sinto falta de nada."
Se calhar sinto.
Falta do meio copo de vinho e das minhas músicas no sofá. Porque agora só tenho o chão da sala. O meu.
Mas não sinto falta de mim.
Encontro-me todos os dias no espelho. No make-up. Em mim, ou na minha vida.
Cortei as amarras. E se existem olheiras, é porque também a dormir tenho os olhos abertos.
Sou Eu a full-time. Não passo facturas, mas sou contribuinte. Na minha felicidade, e na dos que gosto. Não faço descontos. Faço horas extras a sonhar.
De olhos fechados, de olhos abertos.
Porque como diria o JP Simões, "Todos sabemos como é que isto acaba".

E hoje?
Estou-me nas tintas hoje.