Pedaços

domingo, setembro 15, 2013

(des)Iludir

A RM algum dia me disse daquela mesa de cozinha que um dia chegou a ser nossa, enquanto tomávamos o pequeno-almoço num início de dia qualquer: "A culpa é sua fique sabendo." - disse ela com o seu sotaque brasileiro mas num tom sério que me deixava adivinhar que o que vinha eram palavras que eu levaria comigo quando deixasse aquela mesa, aquelas paredes, aquela casa... A faculdade ou mesmo aquela cidade. Sabia que aquelas palavras iam comigo para a vida. E assim foi...
Continuou: "A culpa dessa desilusão é toda sua. 'Cê sabe que quando gosta muito de alguém, você acaba pensando que essa pessoa vai agir sempre de igual para igual. Você gosta tanto que acaba criando uma expectativa alta na outra pessoa... Nunca ninguém prometeu que iria ser assim, mas você fica pensando que o facto de você estar lá sempre, que o facto de você gostar tanto, de você fazer tanto bem, nunca pensa que a outra pessoa possa fazer de outro jeito que não a mesma coisa para você. 'Tá vendo Lili?...  A culpa é sua. Você se ilude com seus pensamentos, é traída por eles... E acaba desiludida com seus sentimentos."
Levantei-me e pensei sobre isto... Remoí.  Mudei de casa... De cidade...
Passaram-se anos.
RM, enquanto escrevo pergunto-me o que pensarias tu se soubesses que após tantos anos, continuo a recordar-me das tuas palavras e a dar-te toda a razão do mundo, mas continuo a agir igual!?
Continuo a iludir-me... E a desiludir-me.
Continuo a criar expectativas e a destruí-las.
O que dirias tu RM?...
Desiludo-me acima de tudo com o facto de me desiludir... Ou de me iludir. Porque este ciclo vicioso é como uma teia de onde tentas fugir... Mas acabas sempre preso.
Por muito curto que seja, o sabor da falsa ilusão é sempre demasiado bom para ficar sem ele... E eu teimo em acreditar que um dia é diferente, continuo a acreditar nas pessoas... Esquecendo que existem más e escassam as boas.


[June 2013]

1 comentário:

Ruy Barros disse...

RM tem razão... mas somos pessoas de sangue quente, nem sempre (quase nunca é) é fácil ser racional em questões sentimentais, por exemplo. Talvez o ideal fosse 50%emoção 50%razão.